Festival Música Viva: Peixinho Político
29/04/202618:00
São Luiz Teatro Municipal, Lisboa
Ensemble MPMP
Gisela Casimiro
Um concerto monográfico de Jorge Peixinho (1940–1995), integrado no Festival Música Viva “Insurgência” da Miso Music Portugal.
Jorge Peixinho é um caso singular na historiografia da música portuguesa. A ele devemos (afirmou Augusto M. Seabra) “o efectivo início de práticas musicais contemporâneas em Portugal”. “Nunca é demais recordá-lo”, disse o crítico. Porém, são demasiadas as vezes em que essas práticas são mal recordadas — reduzidas à introdução de uma estética serialista em contexto nacional, resumida de forma rápida pela sua frequência dos cursos de verão de Darmstadt.
Uma caricatura de tal modo esboçada deixa de fora o seu trabalho seminal na electroacústica, na música incidental para teatro ou no contacto com as práticas contemporâneas de outras disciplinas artísticas. Deixa também de fora o aguerrido trabalho de divulgação da música contemporânea, que Peixinho entendeu desde o primeiro momento como parte integral da sua actividade enquanto intérprete e compositor: desde os “succèsses de scandale” com primeiras apresentações de Cage em Portugal (na primeira das quais tinha o nosso compositor uns imberbes 21 anos), à criação dos primeiros cursos dedicados à música nova em território nacional, até à fundação do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa.
Também a sua participação em Darmstadt merece qualificação: a Darmstadt que Peixinho conheceu — e na qual foi ganhando gradualmente notoriedade — foi a dos anos sessenta. Em 1967 e 1968, Peixinho participa em dois seminários de Stockhausen, nos quais são levadas a cabo experiências de composição de grupo, que trabalham uma polifonia radical, deshierarquizada, composta a muitas mãos. Estas duas experiências — “apaixonantes”, escreve o compositor em correspondência — foram decisivas no desenhar do seu horizonte de futuro.
É aqui que nos juntamos a ele, com este concerto. Enquanto Stockhausen (como foi notado logo por alguns contemporâneos) se mostrava desinteressado (quando não mesmo antagónico) quanto ao potencial utópico destas suas propostas musicais, Peixinho tomou para si a tarefa de pensar o que seria uma música política. Numa originalidade absoluta no caso português — seja na “Primavera Marcelista” ou no PREC (como as obras deste programa), seja no período democrático até hoje —, nenhum outro compositor foi tão empenhado na expressão musical dos seus ideais políticos em música, e nos seus ideais musicais na política. As peças deste programa, com as suas partituras abertas à decisão individual e dependentes da escuta atenta entre os membros do ensemble, oferecem modelos de sociabilidade que podem ser descritos como democráticos. Se a política é o conjunto de actividades associadas à tomada de decisão em grupo, esta música é inerentemente política, muito para lá da frontalidade dos seus títulos. Estas peças são testemunhos vivos do espírito de resistência democrática ao regime salazarista e da vontade de construir um país melhor — e lembram-nos que, tal como a música, a política emerge essencialmente das nossas próprias mãos.
Programa
. CDE (1970)
. Elegia a Amílcar Cabral (1973)
. A Aurora do Socialismo (Madrigale Capriccioso) (1975–76)
Ensemble MPMP
Rui Borges Maia | flauta
Armando Martins | trompa
Miguel Costa | clarinete
Daniel Bolito | violino
Ângela Carneiro | violoncelo
Philippe Marques | piano
Francisco Cipriano | percussão
Luís Salgueiro | electrónica
Com a participação de Gisela Casimiro
Bilhetes: 5€ – 12€, consoante os descontos aplicáveis (ver bilheteira São Luiz)
São Luiz Teatro Municipal – Sala Bernardo Sassetti, Lisboa